Matriz de materialidade: o que é e como fazê-la

O que é matriz de materialidade, como fazer e o que mudou com o GRI 2021 e a dupla materialidade. Guia para priorizar temas ESG
The Atlas Team
16 de Setembro de 2026 10 min de leitura
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Matriz de materialidade: o que é e como fazê-la

A matriz de materialidade é a ferramenta que ajuda uma empresa a identificar e priorizar os temas ambientais, sociais e de governança (ESG) mais relevantes para o negócio e para seus stakeholders. Ela mostra onde concentrar esforço, investimento e prestação de contas em sustentabilidade, em vez de tratar todos os assuntos com o mesmo peso.

O conceito nasceu junto com os relatórios de sustentabilidade da Global Reporting Initiative (GRI), a organização que padronizou esse tipo de relato no mundo. A forma de conduzir a análise mudou bastante desde então: os GRI Standards de 2021 deixaram de exigir a matriz 2x2 clássica e passaram a priorizar os temas pela significância dos impactos da empresa sobre a economia, o meio ambiente e as pessoas.

O que é matriz de materialidade

Matriz de materialidade é um recurso usado para definir e comunicar os principais temas que ajudam a organização a alcançar seus objetivos estratégicos no mercado. A análise permite olhar cada tema relevante em busca de ações que reduzam custos e melhorem a posição da empresa. Com ela, fica mais fácil enxergar o que demanda priorização, investimento, engajamento e ação.

A matriz importa para a sustentabilidade porque traz previsibilidade: quando a empresa sabe quais temas ESG pesam mais, consegue antecipar riscos e planejar iniciativas em vez de reagir a eles. É o que evita que a sustentabilidade fique só no discurso.

Diferença entre matriz de materialidade e matriz de risco

Matriz de materialidade e matriz de risco são ferramentas diferentes e costumam ser confundidas. A matriz de risco serve para visualizar e hierarquizar quais riscos devem ter prioridade de tratamento: ela lida com hipóteses de materialização de problemas e com os controles previstos. A matriz de materialidade lida com temas, não com riscos isolados. Uma prioriza o que pode dar errado; a outra prioriza os assuntos ESG que merecem atenção estratégica.

Por que a matriz de materialidade é importante

A importância da matriz vai além das questões internas: ela também orienta como a empresa atende aos interesses do público. O olhar se volta para todos os stakeholders do ecossistema do negócio.

A partir do desenvolvimento da matriz, dá para entender em quais áreas a organização gera mais impacto positivo, o que a torna uma ferramenta de gestão para decisões mais assertivas. Por isso ela precisa considerar stakeholders internos e externos, com uma comunicação transversal e baseada em temas de sustentabilidade e em seus efeitos de médio e longo prazo.

A matriz de materialidade na governança corporativa

Falar de matriz de materialidade é falar de governança corporativa, porque a empresa que constrói a sua matriz está aplicando critérios ESG na rotina e definindo os temas que vai priorizar nas boas práticas de governança.

Um exemplo: se diversidade e inclusão aparece como tema material, ele passa a ser prioridade em todos os âmbitos do negócio, da diretoria ao atendimento ao cliente, com ações concretas que sustentem esse compromisso.

Matriz de materialidade e GRI

A matriz de materialidade nasceu dos relatórios de sustentabilidade da GRI. Entender a GRI ajuda a entender de onde vem a ferramenta e para onde ela evoluiu.

O que é a GRI?

A Global Reporting Initiative (GRI) é uma organização internacional de padrões independentes que ajuda empresas, governos e outras organizações a comunicar seus impactos em temas como mudança climática, direitos humanos e práticas anticorrupção. Foi a GRI que padronizou as informações desses relatórios, e esse padrão virou referência de mercado.

O que mudou na materialidade com o GRI 2021

Até 2021, a GRI recomendava a matriz de materialidade em dois eixos: de um lado, a relevância do tema para os stakeholders; de outro, o impacto da organização sobre economia, meio ambiente e pessoas. O gráfico 2x2 clássico vinha daí.

Com os GRI Standards de 2021 (norma GRI 3: Temas Materiais, vigente desde janeiro de 2023), a matriz 2x2 deixou de ser exigida. No lugar dela, a GRI definiu um processo de quatro passos que prioriza os temas pela significância dos impactos da empresa:

  1. Entender o contexto da organização.
  2. Identificar os impactos reais e potenciais sobre economia, meio ambiente e pessoas.
  3. Avaliar a importância desses impactos.
  4. Priorizar os impactos mais significativos para o relato.

Na prática, muitas empresas ainda montam a matriz visual porque ela comunica bem a priorização para o conselho e para o mercado. A diferença é que hoje ela é um recurso de comunicação, não um requisito da norma. O que a GRI exige é a lista priorizada de temas materiais por impacto.

Dupla materialidade: impacto e financeira

Dupla materialidade é o conceito que organiza o relato de sustentabilidade hoje. Ele combina duas perguntas complementares sobre cada tema:

  • Materialidade de impacto: como a empresa afeta a sociedade e o meio ambiente. É a perspectiva da GRI (de dentro para fora).
  • Materialidade financeira: como temas de sustentabilidade afetam o valor, os riscos e as oportunidades da empresa. É a perspectiva das normas do ISSB (de fora para dentro).

Um tema pode ser material sob as duas óticas, ou só uma. A matriz de materialidade moderna cruza essas duas leituras para chegar aos temas que a empresa vai priorizar e reportar.

O que mudou no relato de sustentabilidade no Brasil em 2026

No Brasil, o relato de sustentabilidade passou por mudanças diretas de 2023 para cá, e isso afeta como as empresas tratam a materialidade. Em 2023, a Resolução CVM 193 trouxe para o país as normas do ISSB (IFRS S1 e S2), com adoção voluntária a partir de 2024 e obrigatoriedade prevista para companhias abertas a partir de 2026.

Em maio de 2026, a Resolução CVM 244 reverteu essa obrigatoriedade: o relatório de informações financeiras de sustentabilidade voltou a ser voluntário para companhias abertas, mantendo os padrões CBPS e ISSB para quem optar por divulgar.

Para a matriz de materialidade, o efeito prático é pequeno: independentemente da obrigatoriedade, as empresas que levam ESG a sério continuam mapeando seus temas materiais, porque investidores, clientes e reguladores seguem cobrando transparência sobre esses assuntos.

Matriz de materialidade e stakeholders

O termo stakeholders foi popularizado nos anos 1980 pelo filósofo Robert Edward Freeman e indica qualquer pessoa ou organização impactada pelas ações de uma empresa. Em português, é a "parte interessada": clientes, fornecedores, funcionários, comunidades e investidores estão entre os principais.

A ligação com a matriz de materialidade é direta: os temas de maior preocupação da organização precisam ser definidos a partir do que os stakeholders consideram relevante. Por isso, no processo de construção da matriz, eles são ouvidos por entrevistas e consultas, para que a priorização reflita o que importa naquele momento.

Matriz de materialidade e compliance

O Compliance busca gerar valor e proteger a empresa, evitando que riscos e infrações se materializem. A matriz de materialidade contribui nessa frente ao mapear os temas mais relevantes de cada período, orientando ações e estratégias que mantenham a organização atenta a esses assuntos. Ainda que não se confunda com a matriz de risco, também gerida pelo compliance, as duas se comunicam por meio de temas que merecem atenção conjunta.

Matriz de materialidade e a cobertura da mídia

Outra forma de medir quais temas devem entrar na matriz é observar como a organização é vista e referenciada pela mídia. Uma empresa de refrigerante, por exemplo, precisa se preocupar com questões nutricionais, já que o consumo excessivo do produto costuma ser associado à obesidade na imprensa. A maneira como os assuntos aparecem na cobertura sinaliza temas que a empresa deve considerar ao definir sua estratégia e sua matriz.

A matriz de materialidade e ESG

A matriz de materialidade é uma das ferramentas que ajudam a aplicar os critérios ESG na prática. Vale entender a sigla e como ela se conecta à matriz.

O que é ESG?

A sigla ESG ("Environmental, Social and Governance", ou ambiental, social e governança) foi mencionada, no sentido atual, pela primeira vez em 2005, no relatório da ONU "Who Cares Wins". O documento nasceu de iniciativa de instituições financeiras para orientar como empresas devem considerar questões ambientais, sociais e de governança ao investir ou receber investimento. Desde então, os critérios ESG tornaram-se referência de competitividade e sustentabilidade, e alimentam índices ESG acompanhados pelo mercado.

Antes de montar a matriz, vale organizar a base de ESG da empresa. O Manual de Implementação ESG traz um passo a passo prático para estruturar os temas materiais e sair do conceito para a execução.

Como a inteligência artificial ajuda na análise de materialidade

A inteligência artificial já entra na análise de materialidade em frentes bem concretas. Na consolidação das opiniões dos stakeholders, modelos de linguagem agrupam por tema as respostas de dezenas de entrevistas e pesquisas, mostrando onde há convergência sem o trabalho manual de tabulação.

Outro uso está no monitoramento da mídia e do debate público, em que a IA acompanha grande volume de notícias, redes e relatórios setoriais para sinalizar quais temas ESG ganham ou perdem peso ao longo do tempo. A priorização também fica mais rápida, já que cruzar o impacto e a relevância financeira de cada tema parte de dados organizados.

No conselho, esse mesmo movimento acontece na supervisão de ESG. A IA aplicada à governança ajuda conselheiros a chegar às reuniões com os temas materiais já resumidos e contextualizados, reduzindo a assimetria de informação entre gestão e conselho.

Matriz de materialidade e desenvolvimento sustentável

A matriz de materialidade ajuda as empresas a identificar riscos ambientais, sociais e de governança. Um levantamento de materialidade bem feito aponta os dados de sustentabilidade mais relevantes e melhora a relação da empresa com seus stakeholders, incluindo os investidores.

Por onde começar uma matriz de materialidade

Para começar, o caminho mais comum é ouvir os stakeholders da empresa por meio de entrevistas e consultas. Muitas organizações contratam uma consultoria especializada em materialidade e riscos, o que torna as conversas mais estratégicas, objetivas e livres de vieses pessoais.

Depois, as respostas são analisadas para mapear e documentar os temas mais relevantes, que passam a orientar as ações da empresa em sustentabilidade. É um processo longo e detalhado, mas necessário para o desenvolvimento sustentável de qualquer organização.

Depois de mapear os temas materiais, a empresa precisa levar essas prioridades para a rotina do conselho, onde elas se tornam decisão. O Atlas Gov cobre esse ciclo completo, com o Atlas AI apoiando em cada etapa:

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